Em 2025, Albemar lançou o livro “Sonhos de Uma Noite de São João”, livro que homenageia o universo simbólico das quadrilhas juninas. (Foto: Anderson Souza Leão/Divulgação)
Por Heitor Vicente
Toda quinta-feira a Frei Caneca FM publica a coluna #TBT101, onde convidamos o ouvinte e leitor a relembrar alguma entrevista que rolou na rádio pública do Recife.
Nesta primeira semana de junho convidamos você para relembrar uma conversa enriquecedora sobre cultura popular, veiculada no dia 19 de Junho de 2024 no programa Relicário, comandado por Janaína Serra. O convidado foi Albemar Araújo, ator, escritor e dramaturgo, além de apresentador do Ponto 60 – População Idosa em Destaque, programa de rádio voltado para a pessoa idosa, com 40 edições veiculadas na 101.5 FM.
Entusiasta da cultura popular, Albemar conta, durante a entrevista, que os festejos juninos são mais fortes no Nordeste devido à influência portuguesa, que chegou com mais força através dos colonizadores. Essas festas vieram junto com a colonização e acabaram se misturando às culturas indígena e africana já presentes no território. Toda essa mistura de tradições e costumes tornou as celebrações ainda mais ricas e bonitas. Já as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país receberam outras influências de colonização, como as culturas japonesa, italiana, alemã, russa, entre outras.
Confira um trecho do bate-papo:
Janaína Serra: Vamos falar, então, um pouquinho dos elementos importantes desse ciclo: o milho, o fogo, as quadrilhas?
Albemar Araújo: Isso vem de tradições bem antigas, lá da Europa, principalmente de festas ligadas à colheita. Naquele período, comemorava-se a fertilidade da terra, associada à deusa Ceres, na mitologia romana, que ensinava o homem a plantar e colher. Nessas festas havia danças e o uso da fogueira, que tinha um sentido sagrado, de purificação e fertilidade da terra. Com o tempo, isso acabou se misturando com tradições cristãs, especialmente a história do nascimento de São João Batista, que também envolve a simbologia da fogueira como anúncio. Quando isso chega ao Brasil, tudo se mistura com as culturas indígena e africana e ganha um formato próprio. No caso afro-brasileiro, por exemplo, muita gente relaciona o período à força de Xangô, ligado ao fogo e à justiça. No fim, é essa mistura de influências europeias, africanas e indígenas que forma o ciclo junino como a gente conhece hoje, com suas comidas, danças e tradições.
Janaína Serra: Albemar, tem histórias assim que você presenciou, que pode testemunhar nesse ciclo, que te comoveram e que pode compartilhar aqui com a gente?
Albemar Araújo: Olhe, essa história que eu contei de observar o pessoal passando em cima da fogueira ficou marcada para mim para sempre, porque eu devia ter entre seis e oito anos de idade e nunca esqueci. Para mim, aquilo era impressionante: quando eles tiravam o pé, a marca ficava preta em cima da brasa. Até um irmão meu, mais velho do que eu devia ter uns 15 anos, passou também e não se queimou.
As histórias mais novas, hoje, através dos próprios concursos e das apresentações das quadrilhas, mostram os temas que elas desenvolvem e trabalham, porque as quadrilhas passaram a ter um tema para desenvolver. Então, as histórias que elas trazem chegam a ser, às vezes, emocionantes. Você vê eles desenvolvendo aquilo ali em tão pouco tempo, contando uma história que a quadrilha passou; isso acabou virando quase uma opereta. Ela tem dança, texto e cantoria. Então, ela envolve um conjunto de expressões ligadas às artes cênicas, mas eu acho que ainda não está bem definido onde ela se enquadra: se no circo, na dança ou no teatro. Onde ela está, exatamente?
Mas é isso que me envolve: essas histórias do São João, dessa correria do pessoal para conseguir dinheiro para montar aquele espetáculo, né? E os ônibus que quebram no meio do caminho, a chuva, a lama… Eu digo até: São João sem lama não é São João. Ele tinha que ter lama, nem que seja para atrapalhar, porque faz parte do ciclo da chuva.
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