HBLynda apresenta solo teatral sobre vivência trans não-binária. (Foto: Reprodução/Jéssica Viana)
Por Beatriz Santana, com revisão de Gabriele Alves
Para analisar o cenário da produção artística atual da comunidade trans, vale retornar alguns anos no passado. Isso porque, pessoas trans, travestis e não-binárias sempre protagonizaram os próprios enredos, a questão central está na visibilidade voltada para os palcos onde contam essas narrativas.
Em meados da década de 1970, um evento promovido por Crystal Labeija, mulher trans e negra, assume o pioneirismo de popularizar a Cultura Ballroom nos Estados Unidos. Sinônimo de resistência, acolhimento e afirmação de identidade, a cena ballroom se consolida como movimento político contra o racismo em concursos drag, dominados por homens cis, gays e brancos.
Mais que isso, torna-se um espaço onde pessoas LGBTQIAPN+, negras e latinas podiam pertencer e se engrandecer por meio da música, da dança e das performances. Bastava estar presente para ter a chance de expressar sobre si e ser coroade.
À medida que fortalecia de forma emblemática a autoestima de pessoas trans, travestis e não-binárias, os ballrooms revelavam o potencial que a comunidade tem para ser vista em outros palcos – tendo, especialmente, a arte como impulsionadora. Ainda hoje, e fora do território norte-americano, a comunidade trans segue a frente desse pioneirismo.
O solo teatral “HBlynda em TRANSito” é um bom exemplo desse movimento. Lançado em 2025, o espetáculo une biografia e ficção para mostrar como as questões de gênero atravessam a trajetória de muitos brasileiros. A protagonista dessa história é HBlynda Morais: pernambucana, gorda, preta, candomblecista e não-binária, a atriz apresenta nos teatros de Recife o enredo que resulta dos 15 de criação artística e da certeza de que estava na hora de reafirmar a sua existência e alcançar novos públicos – sejam eles LGBTQIAPN+ ou não.
HBlynda compartilha o impacto de apresentar sua trajetória de vida em cenas de teatro:
“Poder fazer um trabalho que traz como plano de fundo a minha história de vida, que entrelaço também com a de outras pessoas, [para] mostrar que temos outras pessoas trans, travestis não-binárias também lutando e fazendo arte. Porque nós normalmente fazemos trabalhos do que as outras pessoas acham que é importante. Esse solo é dizer assim: ‘agora as pessoas vão ouvir o que a HBLynda quer dizer’”.
Além da felicidade em levar um espetáculo inédito para o palco, a atriz destaca o compromisso associado ao solo teatral: representar a vivência trans nao binaria e tocar a vida de outras pessoas da comunidade.
“Quando eu falo de mim, estou falando também das outras. Porque não tem como eu andar só. Têm outras que vêm comigo na história, e na vida. Então é um fortalecimento que a gente faz, porque para que eu pudesse estar hoje aqui foi uma história árdua que envolveu sangue”, complementa.
Nessa mesma linha, a presidenta da Nova Associação de Travestis e Pessoas Trans de Pernambuco (NATRAPE), Samantha Vallentine – também mestranda em antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), travesti e negra, aciona o conceito de “lugar de fala”. Formulado pela filósofa e ativista do movimento negro no Brasil, Djamila Ribeiro, o “lugar de fala” reforça a importância de que essas narrativas sejam contadas por quem as vive:
“Historicamente a gente é negadas, negados e negades a produção de conhecimento, ao saber, ao poder, a disputar lugares de tomada de decisão. Também no próprio se autoconhecer, de entender e de fazer esse letramento que a gente faz quando pensamos. Eu, por exemplo, Samantha Valentim, travesti negra da periferia do Recife, quando penso ‘sou filha de quem? De onde eu venho? E quais são as violências que sofro?’ Eu consigo me letrar, né?”, reflete.

Samantha Vallentine já esteve presente no programa Calor da Rua, da grade de programação da Frei Caneca FM. Na edição, conversa com Janaína Serra sobre o livro autoral “Transnarrativas”. Entrevista completa disponível no YouTube.
Em resumo, essa reivindicação por visibilidade para a comunidade trans ganha força no campo artístico, pela possibilidade de traduzir saberes, experiências e narrativas em diferentes formatos, suportes e mídias. Samantha adiciona:
“Enquanto antropóloga, nós [da comunidade trans] sempre fomos objeto das pesquisas e agora nós nos tornamos as pesquisadoras. Temos uma cosmovisão de mundo muito diferente da cisgeneridade que não vivencia e, consequentemente, não consegue analisar a dor que é atravessada pelas nossas experiências precarizadas. [Então,] a partir desse lugar de dor, de desigualdade, de exclusão, começamos a produzir outras potências e perspectivas de futuro”, finaliza.
Ao levar a própria história ao palco, HBLynda Morais se insere em um debate mais amplo sobre representatividade e legitimidade das narrativas: quem conta essas histórias, a partir de quais experiências e quais vozes são historicamente reconhecidas como produtoras de sentido sobre si e sobre a sociedade.
Olhar para a cena artística atual de pernambucano é comprovar a pluralidade de nomes de pessoas trans, travestis e não-binárias que, assim como HBLynda, assumem a missão de buscar o holofote para a comunidade que produz e sempre produziu do teatro ao cinema, das artes visuais à música.
Exemplos não faltam, desde quem abriu caminho até quem mantém a cortina aberta para novas lutas e provocações em torno da cis-heteronormatividade. Na música, Amun-Há é a primeira cantora de brega não-binária; nas artes visuais, Fefa Lins mistura técnicas tradicionais de pintura com a representação de corpos trasmasculinos; na literatura, Marcondes FH destaca a perspectiva negra e trans não-binária. Há 47 anos nos palcos, Sharlene Esse segue atuando com o brilho de primeira dama trans do teatro pernambucano.
A lista não termina, nem terminará. Longe de resumir a atitude à obrigação, fazem isso por acreditar que essas histórias merecem visibilidade e a arte junto ao poder de falar sobre si mesmo é um caminho potente para alcançá-la.
E fica a provocação de buscar, apreciar e reverberar os trabalhos de pessoas trans, travestis e não-binárias, num compromisso constante de redução dos danos da invisibilidade.





