Por Júlia Nascimento
Toda quinta-feira é dia de #TBT101 na Frei Caneca FM, onde levamos você a relembrar momentos especiais do passado da rádio com convidados e entrevistas maravilhosas. Hoje, te convidamos a voltar em maio de 2026 no Papo de Artista, apresentado por Manoel Constantino.
O programa recebeu a chef de cozinha e iabassê do Afoxé Ogbon Obá Dona Carmem Virgínia. Formada em Tecnologia em Gastronomia pela Faculdade SENAC de Pernambuco em 2010, Carmem é um nome notório nacionalmente por fazer ligação da comida afro-brasileira com a ancestralidade. Ela é a fundadora do Altar Cozinha Ancestral, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Recife.
Ao longo da conversa, Dona Carmem Virgínia falou sobre a influência de sua avó, Dona Edna, em sua carreira como cozinheira. Neta de merendeira, ela passou sua infância cercada pelo afeto que cada refeição carregava, sendo um dos pilares de sua família e isso a levou a sentir mais conexão com a comida, como ela mesmo disse em entrevista: “Eu não escolhi a cozinha, foi a cozinha que me escolheu”.
A chef também falou sobre seu programa de TV, “Uma Senhora Panela” exibido na GNT. A dinâmica principal do projeto é o ensino de forma descontraída e simples de pratos afetivos em uma única panela de barro. Carmem, fala também sobre a ideia que teve para esse programa e como ele leva a democratização da culinária.
A religiosidade representa uma parte muito importante e significativa da vida de Carmem Virgínia, que é iabassê, mulher responsável pelo preparo dos alimentos dos orixás, e uma das criadoras do Ubuntu, ritual que abre o Carnaval do Recife lavando a Avenida Rio Branco com as águas de Oxalá. A chef aprendeu com as mulheres de terreiro os segredos da cozinha dos orixás e explica o por que, para ela, “o candomblé é uma mulher”.
Prestes a completar 15 anos de história, Carmem em entrevista conta que o Altar Cozinha Ancestral nasceu de um sonho com seu orixá e ela revela o que a levou a sair da própria bolha e transformar todo o conhecimento herdado da avó em um negócio próprio.
Anunciada como uma das homenageadas do Carnaval do Recife 2026, Carmen fala sobre o peso e a emoção de representar, no Marco Zero, todas as mulheres negras que, como ela, não se dobraram. Uma fala arrepiante sobre ancestralidade, resistência e o que significa ser “um instrumento” para tantas outras.
Confira um trecho do bate-papo:
Manoel Constantino: Como você se sente repassando esse conhecimento de uma cozinha tão nossa, com tanta alegria? Tenho acompanhado seu programa de sábado, o Uma Senhora Panela.
Carmen Virgínia: A TV sempre foi um objeto de fascinação para mim. O rádio é algo que todo mundo tem, eu sempre viajei muito ouvindo rádio, mas a TV é algo que sempre gostei. Lembro de ver novela pela janela do vizinho, lembro da primeira televisão que vi dentro de casa. A TV está muito dentro de mim. Quando fui convidada para um programa no GNT, era um reality show; depois me deram um programa só meu, que é o que está passando na Globo em reprise, onde cozinho tudo numa panela só. A ideia foi minha, junto com o Jorge Fiel, meu escudeiro.
Eu queria mostrar para a dona de casa que ela pode fazer tudo dentro de uma única panela. A gastronomia serve para nos aproximar, não para nos distanciar. Acho que, quando um chef assina um prato e aparecem aquelas panelas e aquele fogão que a gente não tem em casa, cria-se uma distância. Por isso usei uma panela de barro feita por Dona Terezinha Gonzaga, um patrimônio vivo do Alto do Moura, para mostrar que a gastronomia é um elemento cultural que valoriza nosso povo. A primeira temporada foi gravada em Olinda, trazendo o Alto do Moura; a segunda vai ser gravada aqui no Recife, na minha cidade, no meu lugar. Todas as pessoas que recebi no programa eram meus amigos.
Manoel Constantino: Não percam! é muito bom. Eu mesmo assisto sentado na frente da TV, encantado, vendo alguém que ama o que faz passando receitas maravilhosas que deixam a gente com água na boca.
Carmen Virgínia: É verdade. Quando estou com meus amigos, fico muito feliz. Quando eles toparam fazer o programa comigo, disseram: vamos juntos, porque ela sempre sonhou com isso. Eu sempre sonhei em estar dentro da casa das pessoas, junto das donas de casa, porque são elas que realmente precisam de receitas fáceis, com o que já têm na geladeira.
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Curtiu esse trecho? Confira a entrevista na íntegra através do Spotify da Frei Caneca FM. Toda quinta-feira publicamos a coluna #TBT101, onde o ouvinte relembra entrevistas importantes que a 101.5 trouxe na grade de programação.





