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Prefeitura da Cidade do Recife

Apostas Frei Caneca FM apresenta Marcela Souza

Hugo Muniz (foto) - De origem periférica e da cultura popular, a cantora e compositora pernambucana Marcela Souza é cria da comunidade do Amaro Branco, em Olinda, onde vive até hoje.

“O meu caminho é justamente acompanhada – jamais sozinha”, afirma Marcela em entrevista à emissora.
(Foto: Hugo Muniz)

Por Beatriz Santana

Conhecida pelo slogan “a Rádio que toca a cultura, toca o Recife e toca você”, uma produção anual também é a cara da Frei Caneca FM: a Lista de Apostas. Desde 2021, 50 nomes pernambucanos e nacionais, os quais a curadoria da emissora considera com uma estrada apontada para destinos artísticos cada vez mais prósperos no ano que se inicia, são reunidos em uma lista e anunciades aos ouvintes. Mais detalhes sobre as Apostas você confere na matéria escrita pela radialista Gabriele Alves, com título “Apostas Frei Caneca FM 2026: pela soberania nacional, bem longe das ‘bets’”.

Agora, o destaque está para o projeto que se propõe a apresentar alguns nomes de artistas listados pela curadoria. Na semana passada vocês puderam conferir detalhes da banda pernambucana Jambre e do álbum “Eu Quero Amar de Novo”. Desta vez, podem desvendar a música litorânea da coquista de praia, Marcela Souza. Cantora, Marcela passeia pelo coco, samba, xaxado e diversos gêneros musicais. Não somente, fortalece a cena pernambucana como produtora cultural e assina como comunicadora social, formada em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

Mulher preta, candomblecista, Marcela é natural de Recife e crescida no Amaro Branco, bairro em Olinda (RMR). Território este responsável pelo contato de uma pessoa sem família ligada às culturas populares com à religiosidade de matriz africana e, particularmente, ao Coco de Praia – muito fomentado na comunidade litorânea. Artisticamente, os caminhos direcionaram Marcela para a carreira solo. Lançado em novembro de 2025 e disponível nas plataformas digitais de música, o álbum de estreia, com nome “Meu Caminho”, concretiza uma carreira musical iniciada em 2014 e fez os olhos da curadoria da Frei Caneca FM se voltarem para a travessia de prosperidade que aguardam a coquista em 2026. 

Dos anos de experiência musical, acumula um repertório amplo voltado para a resistência e fortalecimento da autoestima – do bairro e das mulheres pretas. Vocalista do Coco da Resistência, do grupo vocal Encantaria, no Coco de Mulheres e na Bateria Povoada, também faz parte de trabalhos do Mestre Galo Preto, Mãe Beth de Oxum, Coco do Catucá (grupo o qual começou a carreira em 2014) e Aurinha do Coco – em memória.

Em uma entrevista exclusiva concedida à produtora e estudante de jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Beatriz Santana, Marcela compartilha o quanto foi contagiada pelo Coco de Praia e o tanto que encara o EP “Meu Caminho” como uma retribuição às mestras e os mestres que a conduziram.

Antes, vale conhecer um pouco da construção do EP

Não é de agora que a valorização às culturas populares pelos representantes públicos, seja em oferta de palcos principais, seja em pagamento de cachês, não é proporcional à qualidade e visibilidade que fazedores de cultura tradicional pernambucana, com suas produções artísticas, proporcionam ao estado.

Particularmente o Coco de Roda, também conhecido como Coco de Praia, enfrenta a marginalização para elevar, cada vez mais alto, o ritmo das sambadas. Quem fala é Marcela – na verdade, quem canta – no trecho como eu vou cantar amor se eu só recebo espinhos?”, do poema musicado intitulado “Mulher Preta”. A pergunta é seguida por um desabafo: “fazer cultura de onde eu venho é adoecedor […] inevitável não pensar no desatino”, para, enfim, ser potencializado por um recado: “mas digo a eles que não vou desistir, continuo cantando”. 

A música autoral faz parte do EP de estreia de Marcela. Com título “Meu Caminho”, o projeto, produzido com incentivo da Política Pública de Incentivo Nacional Aldir Blanc (PNAB – PE), é composto por seis faixas que exemplificam o porquê da artista insistir na música, especialmente, no coco praieiro:

Em “Eu Sou do Amaro”, a percussão embala a ligação íntima da artista com a comunidade do Amaro Branco – terra de mestres coquistas e representantes das culturas populares – os quais Marcela busca homenagear. Já em “Todas Marias”, faixa que vem a seguir, está a síntese “o meu cantar é canto de um povo inteiro” – apesar da carreira solo, o trabalho da artista é resultado de uma luta coletiva, marcada pelos ensinamentos das mestras da Jurema Sagrada e a força dos ancestrais.

A faixa “Olinda Me Leva” aponta os caminhos para onde a artista deseja – e tem potencial – para navegar, tendo a base solidificada em Olinda, município marcado por símbolos culturais, e a vontade de apresentar o Coco de Praia para além do litoral.“Mulher Preta” é um desabafo de quem trabalha para ser reconhecida. 

“Floresceu” são os frutos de uma multiartista que plantou esperança e colheu respostas para continuar – também no fomento à cultura. “Vendaval de Mim” é um canto à Oyá, símbolo de determinação, a orixá guia a artista pela “brisa leve / mesmo quando chorar ou cair”.

Confira a entrevista:

BEATRIZ: Marcela, quero traçar esse paralelo da sua relação com a comunidade do Amaro Branco e a sua relação íntima com a música. Você compartilha comigo?

MARCELA: Nasci no Recife mas cresci de fato no Amaro Branco. Não saí e não tenho intuito de sair. Eu e minha família fomos abraçados por essa comunidade, nos aquilombamos lá. E queria uma canção que a gente pudesse cantar e dizer: “Eu sou daqui”, porque a gente tem muito orgulho de ser do Amaro Branco. É um lugar muito rico de cultura. Esse hino foi um presente de Diego Leon, adaptada por mim para também convidar o mestre Lú do Pneu. Esse single remete à ancestralidade, ao respeito aos mestre, enquanto diz que o meu caminho é acompanhada – jamais sozinha. E cultura popular lá não se faz só.

BEATRIZ: A questão da ancestralidade está realmente muito presente nas seis faixas do EP. Então quero aproveitar e trazer à tona um trecho da faixa “Todas Marias”: “O meu cantar é canto de um povo inteiro” e pedir para você traçar um panorama da sua relação com as produções artísticas e esse panorama familiar, não necessariamente de sangue, mas de comunidade, de aquilombamento.

MARCELA: Todas Marias é uma música que traz, além de ancestralidade, espiritualidade. Ela é dedicada para as mestras da Jurema. Eu cito três mestras: Mestra Paulina, Mestra Amélia e Mestra Luziara, que são os três pilares do meu terreiro. [Mais que uma dedicação], gostaria que a música abrangesse o sentimento de gratidão e de proteção com a nossa ancestralidade. E quando falo, quando canto essa música, não só falo de religião, falo mesmo de força, de resiliência – que a gente não consegue construir nada sozinho. Acho que a a luta do povo negro é muito coletiva.

BEATRIZ: 2025 foi o ano que você lançou o EP de estreia, mas sua carreira tá sendo construída desde 2014. Quero que você desenvolva sobre passar de pessoa que consome [arte] para uma pessoa que produz e ter a benção das pessoas que falaram assim: “Eu acredito no seu trabalho, acredito na contribuição que você pode fazer de levar o nome de Amaro Branco para outros espaços”.

MARCELA: Eu falo que não fui puxada, meu caminho foi direcionado – de uma forma que não esperava. Porque, apesar de ter crescido no Amaro Branco, não sou de família que vem dessa tradição, [também] não fazia parte de nenhum grupo, não tive experiências com o coco de roda até entrar na “Junina Coração” (quadrilha mirim). Fui parar em Camaragibe – quando Daybson, do Coco de Catucá, me chamou para um ensaio aberto e disse: ‘Pronto, toma [o ganzá], tu vai tocar”. Eu não sabia tocar. Aquilo foi tão desafiador, mas fui fazendo. E isso foi me despertando. Cada vez mais o coco, a cultura popular, a música foi me levando para outro lugar.

BEATRIZ: Que bom que você foi atingida positivamente por esses movimentos que chamam pessoas da juventude para ter contato com esse tipo de cultura, Marcela. Porque dialoga com a questão de aquilombamento urbano que você vem falando: pode não haver uma tradição na sua família de sangue, mas pode apresentar para a sua família a relação que você tem íntima hoje e também fazer parte de uma nova família [a do coco]. Desenvolve essa questão de aquilombamento urbano para a gente? 

MARCELA: Isso também traz a questão social e racial. O racismo está impregnado na marginalização das manifestações populares. Historicamente, o Coco sofreu muito – mas resistiu bastante –  e fez com que outras pessoas negras também se afastassem e subestimassem o potencial do ritmo e a seriedade de quem faz. Eu tive isso na minha casa, né? Tava fazendo jornalismo, então, tava com um caminho encaminhado, mas quando [meus pais] me viram saindo de casa para ir cantar, ganhar nada, foi um impacto muito grande. O meu esforço de continuar fazendo foi mudando o olhar deles em relação à cultura popular. [Mostrei] que não é só a música pela música, mas uma carga histórica muito importante e que pode e está sim mudando o destino da nossa família.

BEATRIZ: O EP foi aprovado, lançado e apresentado em um show. [Não somente], foi um dos impulsionadores para Marcela estar na Lista de Apostas 2026, da Frei Caneca FM. O que representa a apresentação da sua música dentro de uma emissora pública?

MARCELA: É importante demais, né? [O rádio] alcança gerações que não estão tão conectadas assim no celular, mas que ainda fazem parte do nosso dia a dia. A gente faz música para ser tocada mesmo, para ser reproduzida. É muito bacana quando a gente se escuta. Isso valoriza o artista, né? [Também] faz até com que outras busquem conhecer e reconhecer aquele trabalho.

BEATRIZ: Marcela, antes de nos despedirmos, o que é o coco de praia para você?

MARCELA: Hoje, o coco de praia é meu foco de vida, né? Meu divertimento é uma sambada, meu trabalho é o coco – respiro coco 24 horas. O coco sempre me emociona, se acabar, eu perco meu estímulo de vida. Consigo enxergar para além da música, enxergo a questão social, a afirmação da origem afro-indígena. O pulsar do bombo é o coração do coco, mas também bate dentro do meu peito.

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A entrevista completa e em áudio vai estar disponível como um quadro no programa BR-101.5. Acompanhe o Instagram da emissora: @freicanecafm para atualizações. Também siga @mamasouz4 e engaje as futuras produções de Marcela Souza.