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#TBT101 - Masculinidade na literatura

20.03.25 - 14H12
Da esquerda para a direita, Daniel Lima, Janaína Serra e Hugo Dubeux.

Da esquerda para a direita, Daniel Lima, Janaína Serra e Hugo Dubeux no estúdio da 101.5.

 

Por Willames Ferreira


Na literatura, a expressão de sentimentos pessoais e incompreendidos se torna um fator primordial quando se exercita o autoconhecimento e compartilhamento de experiências vividas. Em outra vertente, em uma sociedade repleta de estigmas, a masculinidade é uma discussão frequente, e quando associada a literatura, é uma temática que abrange discussões necessárias. Uma excelente abertura para as discussões é o clássico filme Sociedade dos Poetas Mortos (1989), que trouxe para os cinemas dos anos 90 a narrativa de que a masculinidade pode estar  associada à compreensão de sentimentos, sem que haja uma repressão dos mesmos. E partindo dessa temática, o #TBT101 desta semana relembra o episódio do programa Relicário, em que Janaína Serra conversou com Hugo Dubeux e Daniel Lima sobre Masculinidade na literatura.

Hugo Dubeux  é escritor, poeta, arteterapeuta e produtor cultural. Em 2024 lançou o livro de poesia Existe um Homem Selvagem, onde reúne fragmentos de sua vivência enquanto artista, geógrafo, terapeuta e homem. Daniel Lima é psicoterapeuta, mestre em saúde pública. Atua como ativista, pesquisador nas pautas de equidade de gênero, masculinidade, saúde dos homens, paternidades e cuidado e prevenção à violência baseado em gênero desde 2000. A edição do programa Relicário que contou com os dois convidados foi ao ar no dia 05 de junho de 2024.

Confira alguns trechos:

Janaína Serra: Olha, vou fazer a pergunta aí. Você aproveita a fala, Daniel, sobre essa masculinidade no plural. Eu queria saber o que levou vocês a se posicionar sobre essa questão das masculinidades e a promover o debate. Já não é fácil, eu acho, cuidar de si nessa percepção do que não está bom, do que precisa mudar, mas mais que isso, vocês têm esse...dão esse passo de ativismo, eu acho mesmo, quando se propõe o debate.

Daniel Lima: Bom, como eu tinha falado da outra vez, esse percurso pra mim começa há um bom tempo, começa entre 1999 e 2000. Enfim, sou introduzido, fico sabendo do Instituto Papai, que é uma ONG daqui do Recife, que hoje em dia tem um formato, e atua de uma outra forma, não existe mais enquanto ONG, que desenvolvia ações e intervenções também em escolas, que foi como eu comecei a trabalhar com essa discussão. 

Então, no início do curso de psicologia, eu tive essa oportunidade de estagiar no Instituto Papai, que é uma ONG feminista, mas que sempre teve uma atuação direcionada mais pra população masculina. E pra mim tudo aquilo era uma grande novidade. Naquela época, muito diferente, felizmente, do que a gente tem visto hoje, o próprio debate de gênero estava apenas iniciando aqui no Brasil, em alguns lugares, e incluindo homens, então, era uma coisa mais rara ainda, era uma coisa estranha. 

Então, nos eventos que eu chegava, junto com Jorge Lira, e com Benedito Nebrado, que são os fundadores da organização, ela vê o pessoal do Papai, ela vê os homens do Papai, ela vê os meninos do Papai, e só tinha gente, não tinha mais ninguém falando sobre masculinidades, naqueles espaços, espaços de grupos de mulheres, espaços feministas, e nós lá aprendendo, conversando, trocando. Então, pra mim, isso começa ali. E eu meio que me acho nessa discussão, porque a partir dessa conversa, dessa reflexão sobre as masculinidades, que eu começo a ver ali, eu começo, de fato, a identificar um incômodo que eu sempre tinha tido, que era o incômodo de nunca ter conseguido me enquadrar naquele universo do que é visto como masculino, naquele universo muito restrito, muito rígido, muito opressor do que é ser masculino. 

Então, eu nunca tinha me visto como uma pessoa forte, poderosa, isso, aquilo, outro. Ainda mais crescendo, ainda mais na infância, eu tinha uma questão muito...eu era muito baixinho. E nesse espaço de ser um menino pequenininho, eu era o menino café com leite, eu não era visto como  um menino para os outros meninos (...)

Janaína Serra:  Eu acho, tem uma coisa de cada um acha a sua turma, você acha o seu espaço, mas não sem sofrimento, e ser esse espaço também, levantar assim, aqui tem um espaço tanto para discussão, para propor a discussão para quem não está pensando nisso, quanto um espaço de acolhimento, de segurança de troca também para quem também está buscando um caminho outro do que esse que existe.

Hugo Dubeux: Eu acho que para mim tem um caminho muito parecido, só que eu volto primeiro para esse início de vida. Eu acho que talvez começar um processo, digamos assim, contra hegemônico, ou seja, quando você se compõe a partir da identidade que não está posta na hegemonia, você não tem muita escolha, além de realmente ou sucumbir ou dar um jeito. 

E aí, para mim, infância e adolescência foram momentos mais de sucumbir, digamos assim, de muito sofrimento, de tentar performar coisas que não era quem eu era. Eu sou um homem bissexual também, então tem uma coisa desse crescimento de primeiro não ter referência sobre bissexualidade. Para mim, eu nem sabia que isso existia. Para mim, ou você tinha que ser gay, ou você tinha que ser hétero, e eu ficava...Às vezes eu achava que eu era gay, às vezes eu achava que eu era hétero, e ficava nessa confusão. E ao mesmo tempo, obviamente, nos momentos que eu achava que eu era hétero, digamos assim, eu ficava feliz e radiante. Nos momentos que eu achava que eu era gay, eu ficava... Ai, meu Deus do céu, e agora? Será que eu sou gay? Então isso sempre foi uma questão muito forte para mim. 

E eu sempre tive uma coisa de sensibilidade muito mais forte do que essa coisa da força que Daniel estava falando. E assim, eu me lembro muito, uma vez eu estava com uns amigos meus em uma lan house, e a gente estava jogando, e era jogo de tiro, eu nunca fui bom nesses jogos de tiro, nunca nada. Mas eu estava ali também, porque eu gostava de estar com meus amigos. Mas era essa estranheza mesmo. Eu gostava de estar com eles, mas ao mesmo tempo, tinham coisas que não faziam parte de mim. Mas tinha que estar ali, era o que me rodeava (...)

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Confira essa entrevista na íntegra através do nosso canal no Youtube. Toda quinta-feira publicamos a coluna #TBT101, onde o ouvinte relembra entrevistas importantes que a 101.5 trouxe na grade de programação.


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