Ingrid Guerra e o apresentador Manoel Malaquias
Por Heitor Vicente
Toda quinta-feira é dia de #TBT101, um momento de relembrar acontecimentos especiais do passado. A Frei Caneca FM quer retornar com você ao quinto episódio da terceira temporada do programa Minha Música, comandado por Manoel Malaquias, durante o #Verão101.
Na ocasião, o apresentador recebeu a recifense Ingrid Guerra. Além de flautista, a artista é professora de música, licenciada pela UFPE e técnica em flauta pelo Conservatório Pernambucano de Música e é instrumentista em projetos como Sagrama, Orquestra Sinfônica do Recife, Transversal Frevo Orquestra e Banda Sinfônica do CEMO (Centro de Educação Musical de Olinda).
Durante a entrevista, Ingrid Guerra conta como a música e a flauta entraram em sua vida. A artista afirma que os dois elementos chegaram ainda na infância, após ser sorteada para ingressar no Conservatório. Em determinado momento de sua iniciação musical, ela decidiu escolher a tuba como instrumento, mas sua mãe foi contra a decisão por acreditar que a filha não teria condições de carregar o instrumento no ônibus. Foi essa situação que abriu seus olhos para a flauta transversal.
Ao longo da conversa, Manoel também pergunta sobre a influência da cidade do Recife na formação da flautista. Ingrid explica que, embora não tenha vindo de uma família de músicos que tocavam instrumentos em casa, sempre esteve cercada por música e foi estimulada a frequentar festas populares, como o Carnaval e o São João.
Essa vivência a aproximou das ruas. As festas tradicionais que frequentava com a família se transformaram em memórias afetivas que, mais tarde, se conectaram à sua trajetória profissional. A artista relata que começou a tocar profissionalmente em festas e folguedos por necessidade financeira durante a faculdade.
Ingrid Guerra iniciou sua carreira profissional aos 18 anos, impulsionada pela necessidade de obter renda. Antes disso, sua relação com a música acontecia em espaços como as missas do colégio, onde participava de forma voluntária.
Durante a entrevista, Ingrid também é questionada sobre a presença da flauta no universo do Carnaval e responde com um olhar de pesquisadora e instrumentista: “A flauta no Carnaval, em especial no frevo, está visivelmente localizada nas orquestras de pau e corda. São as orquestras onde se toca o frevo de bloco, né? E essas orquestras têm um naipe de madeiras, muitas vezes com clarinete, além de violões, banjo, cavaquinho, às vezes violão de sete cordas e até violino em algumas formações…”
Confira um trecho do bate-papo:
Manoel Malaquias: Como é estar nesse em tantas formações de peso? Como você se organiza para atender essas experiências?
Ingrid Guerra: Ó, vou te dizer: quando eu entrei, eu entrei primeiro na Transversal, antes do Sagrama. Eu entrei na Transversal, a gente gravou o CD e, assim, era uma novidade. Tinha uma agenda muito cheia, tanto de Carnaval quanto dos compromissos de prévias também. É o projeto de César Michiles. Ele retira o naipe de sax e coloca um naipe de flautas, justamente nessa perspectiva que a gente tinha conversado antes. E aí, depois, eu entrei no Sagrama. O Sagrama é esse grupo que faz parte de todas as festas, né? Toca frevo, toca maracatu, toca guerreiro, toca cavalo-marinho, maracatu de baque solto, forró, marchinha… Enfim, é um grupo que pesquisa e se interessa muito por todas as manifestações populares. Então, realmente, o Sagrama tem um calendário o ano inteiro. Mas, quando eu percebi a agenda de ambos, eu tive que sair do frevo de bloco, que era onde eu atuava antes, no Carnaval.
Eu participava do bloco Quero Mais, um bloco querido de Olinda. Foi uma dissidência também do Bloco da Saudade. Eles são meio amigos, assim, né? A mesma galera que fundou ambos. Eu tenho o maior carinho pelo frevo de bloco, mas é um grupo muito grande, demanda muitos ensaios e tem uma agenda grande mesmo. No Recife, tem o Encontro de Blocos Líricos, na segunda-feira de Carnaval, que é a coisa mais linda do mundo. E eu lamento muito que hoje eu não consiga participar, porque realmente eu priorizei o Sagrama e a Transversal.
Hoje eu faço muitas coisas como você falou aí, mas realmente o Carnaval é uma época mágica. Eu consigo estar tocando e me arrepiando, cantando e me arrepiando, dançando e me arrepiando. Sabe aquela coisa? Acho que só quem gosta mesmo de Carnaval vai entender. Não é só estar na rua, não é só estar no palco. É alguma coisa que paira, assim, no ar. E aí eu vivi isso de novo este ano. Foi ótimo. Paraquedista Real, me chame mais vezes!
Manoel Malaquias: Ingrid, eu queria ir para um tema agora mais reflexivo sobre essa indústria, sobre essa cena musical, que é essa questão de gênero. A gente tem debatido, tem falado muito sobre isso nos últimos tempos dentro da música. E, assim, historicamente, os sopros e as orquestras de Carnaval foram espaços muito masculinos. Como é que tu enxerga hoje a presença das mulheres nesses ambientes? E, ao longo da tua trajetória, tu sentiu algum desafio, alguma coisa específica, assim?
Ingrid Guerra: Olha, para voltar um pouquinho naquela nossa conversa sobre os diferentes tipos de frevo, né? O frevo de bloco, ele também tem essa marca. Na história do frevo de bloco, ele também tem essa marca de ser um frevo que ocupava os clubes. Então, era uma forma de controle de alguns homens sobre as suas mulheres, sobre as suas filhas que tocavam, né? Mas que eles não queriam que ficassem na rua. E aí, por isso que hoje, dentro dos ambientes onde se escuta frevo, se vê frevo e o frevo é feito, é muito mais comum a gente ver as mulheres dentro desse mundo do frevo de bloco. A história justifica isso, não é à toa, não. Alguns dos lugares onde eu convivi com mais mulheres no frevo foi quando eu fazia parte do Quero Mais, né? Tinha as mulheres que são do coro e também algumas instrumentistas.
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