Por Júlia Nascimento
Quinta-feira na Frei Caneca FM é dia de reviver entrevistas e convidados maravilhosos que passaram pela rádio. No #TBT101 de hoje relembramos o dia 10 setembro de 2025, Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, onde o programa Calor da Rua, apresentado por Janaína Serra, convidou a psicóloga Ana Carolina Barros para uma conversa sobre Setembro Amarelo.
Durante o diálogo, Janaína e Ana Carolina discutem como ainda existe um tabu quando o tema é saúde mental. Embora as campanhas de prevenção ao suicídio sejam essenciais, elas também destacam a importância de que essa pauta seja lembrada não apenas durante o mês de setembro, mas ao longo de todo o ano.
Outro tópico da conversa foi o adoecimento mental causado pela falta de acesso aos direitos básicos, pelo ritmo acelerado da vida nas grandes metrópoles e pela pressão social gerada pelas redes sociais. A comparação constante com outras pessoas, intensificada pelo avanço tecnológico e pelas redes sociais, é apontada como um dos principais fatores que contribuem atualmente para o sofrimento psíquico.
Barros também relatou os riscos do uso da Inteligência Artificial (IA) como substituta de profissionais de saúde, especialmente psicólogos e psiquiatras. Segundo ela, a IA pode oferecer recursos básicos de autoajuda, mas não consegue compreender por completo as necessidades de cada pessoa nem oferecer o suporte necessário em casos extremos de sofrimento.
A psicologia também destaca a enorme importância de verbalizar o sofrimento e buscar acolhimento. Ela argumenta que muitas pessoas têm medo ou vergonha de utilizar medicamentos para auxiliar em questões psicológicas devido ao receio do que os outros vão pensar, como se quem faz uso desses medicamentos fosse automaticamente visto como “louco” pela sociedade. Esse tabu, no entanto, é antigo e antecede o movimento antimanicomial. Durante a conversa, Ana Carolina também desmente alguns mitos relacionados ao uso de medicamentos e aborda os avanços da reforma psiquiátrica no Brasil.
Por fim, Ana Carolina fala sobre como identificar sinais de sofrimento e ressalta a importância de estar sempre atento às mudanças de comportamento das pessoas que fazem parte do nosso cotidiano. Ela também orienta sobre diferentes formas de buscar ajuda, principalmente por meio dos serviços públicos de saúde.
Confira um trecho da entrevista:
Janaína Serra: Carol, é bom você ter entrado neste assunto do cuidado, porque está difícil a vida, né? Então, eu vejo reflexos disso em tantos lugares. A vida está cara, corrida, é falta de tempo, é muita pressão, principalmente a vida nas grandes cidades, onde a qualidade de vida e a forma como ela vem sendo vivida, com tanta pressão e desigualdade social, são motivos que levam ao adoecimento. […] Nem sempre depende só da pessoa. Vamos buscar formas de autocuidados, vamos buscar terapia, mas tem algo neste estilo de vida que é maior que a gente aí eu queria conversar um pouco com você sobre isso, como vem afetando as pessoas.
Ana Carolina Barros: Sim, a gente vive numa sociedade que cobra muito. A gente tem aí discussões, inclusive, de escala de trabalho. Em Brasília está acontecendo esta discussão, que eu acho que é uma discussão válida, porque o adoecimento de um profissional porque ele não consegue ter tempo de qualidade com a família. Então, eu trabalhei em serviços públicos por mais de 10 anos e chegava para mim, naquele espaço, diferentes modos de adoecimento, do que provocou aquele adoecimento, aquele sofrimento mental.
Muitas vezes era falta de acesso a cuidados básicos, direitos básicos, que seja uma alimentação, uma moradia adequada. Tinham pessoas morando em situações insalubres ou locais que têm muito risco para ela, risco de vida, inclusive. Então, tudo isso: não conseguir que seu filho acesse aos direitos básicos, de escola, de vacina.
A gente acabou de sair daquela reclusão, entre aspas, porque o vírus segue, de pandemia, que a gente ainda está avaliando as consequências desse período, quanto isso afetou também a saúde mental das pessoas. A gente tem essa adaptação moderna de interligados virtualmente o tempo todo, o que causa uma pressão. Você entra em alguns aplicativos de fotografia, redes sociais, e aí a gente se compara com aquelas pessoas que estão ali, e isso vai minando também a autoestima e se coloca mesmo no local de sofrimento.
Hoje, quando escuto muitas pessoas, que eu acompanho e tudo mais, tem muito relação com essa comparação com o outro em vários aspectos, no aspecto social, aspectos de trabalho, não consigo ter aquilo que almejo ou que tinha almejado. Aí, desemprego, serviços públicos precários, e tudo isso afeta, sim, a saúde das pessoas.
Então, não é simplesmente dizer: “Busque uma terapia”, “vai fazer terapia”, “vá caminhar”, “vá correr”, “vá fazer exercício físico”, né? Claro que isso é ótimo para uma parte da população que consegue acessar isso. Uma outra parte, ela não consegue porque ela está correndo atrás desses direitos básicos que deveriam ser garantidos pelo Estado e que ela tivesse minimamente as coisas que são seu direito.
Janaína Serra: E isso vai ampliando muito, né? Intensificando questões que já podem ser de adoecimento da pessoa, depressão, por exemplo, e tem outras questões aí também.
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Curtiu esse trecho? Confira a entrevista na íntegra através do YouTube da Frei Caneca FM. Toda quinta-feira publicamos a coluna #TBT101, onde o ouvinte relembra entrevistas importantes que a 101.5 trouxe na grade de programação.





