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#TBT101 Diogum: arte e escultura com “Ferro Ifé”

03.04.25 - 12H02
DIOGUM

Foto: Divulgação

 

Por Mateus Paegle

A arte, como instrumento de expressão e comunicação, muitas vezes reflete, ao longo da história, as crenças e tradições de um povo, sua cultura, suas ideologias e também suas religiões. Pensando na ligação da arte com a ancestralidade, com o simbolismo religioso e espiritual, o #TBT101 desta semana recorda a edição do programa BR-101.5 em que Gabriele Alves conversou com o escultor pernambucano Diogum. O programa foi ao ar em 31 de janeiro deste ano de 2025, na semana de lançamento da exposição “Ferro Ifé: O Atlântico Negro de Diogum”, no MAMAM (Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães). A mostra, como não poderia deixar de ser, também foi tema do bate papo.

Durante a entrevista, Diogum, acompanhado da artista plástica e curadora Sil Karla, conversou com Gabriele sobre as raízes da sua produção artística, desde os anos em que participou do ponto de encontro de artistas “Xinxim da Baiana”, em Olinda, até o começo da exposição das suas peças em galerias, eventos culturais e museus, chegando até a recente mostra no MAMAM. O escultor olindense também destacou a relevância da sua base espiritual ligada às tradições do candomblé e como ela tem influência no simbolismo religioso presente em suas obras. Confira um trecho da entrevista:

Diogum: (...) O Xinxim foi minha base. E daí eu venho, 1 ano antes da pandemia, acho que em agosto de 2019, nós fechamos o Xinxim e começa esse processo de imersão em casa. Eu tinha meus ferrinhos lá, meus restinhos de ferro.

Gabriele: Isso já durante a pandemia?

Diogum: É. Eu sempre tive, sempre me acompanhou esse meu equipamento, independente do que eu fizesse, estava sempre com ele, porque já vinha do meu pai. Aí eu tinha minha máquina, durante os 15 anos de Xinxim ela fica lá guardadinha no quarto dela, a máquina e alguns ferros. Então quando o Xinxim acabou eu fui pra casa, uma casa que a gente alugou, então disso aí a gente vivia, era o que sustentava e pagava as contas. A gente iniciou através de um processo de pesquisas, de buscar como fazer, aí comecei a trabalhar com Silvana. Silvana fez uma exposição, eu fui, participei, eu tinha produzido 12 pássaros. A gente participou dessa exposição e o dono da galeria, que na época era um alemão, gostou das peças. E a partir daí a gente recebeu um convite para levar as obras para a França e ganhamos um prêmio lá, nós dois juntos. Então eu disse: “pô, já tô assim? Então eu já tinha esse certificado” (risos). Depois eu retorno, fiz artesanato durante 3 anos, fiz Fenearte (...) fui convidado para uma exposição no Brennand (...) e de lá pra cá não parou mais.

Gabriele: (...) Existe muito uma percepção do público de que parece que a produção artística vem do nada, do nada eles vão fazer uma exposição, e não, é uma trajetória tão longa, né? Tanto que a gente começou falando do Xinxim, que muita gente talvez pense que não tem nada a ver, mas já era a trajetória sendo construída, era essa história sendo escrita e os atores que fizeram parte dessa história também chegando junto, que hoje pode ser vista lá no MAMAM, na exposição “Ferro Ifé: O Atlântico Negro de Diogum”. Eu tô muito empolgada, porque nessa exposição vocês trazem algumas obras inéditas, agora é a primeira de Diogum dentro de um Museu, né?

Diogum: Isso. Com algumas obras em destaque, inéditas, diferentes, que são obras que… minhas obras, na verdade, elas representam essa coisa da ancestralidade, a natureza, a fluidez, os orixás. Então ela é essa obra de resgate, de autoestima, de positividade, de símbolos, gosto muito de trabalhar com os símbolos, porque os símbolos trazem forças, né? Os símbolos ocultos. Gosto muito de trabalhar com as ferragens, eu comecei fazendo ferragens, ferragens para terreiros, e faço até hoje. Faço ferragem de candomblé, ferragem para pombagira, para exú, então estou sempre nesse caminho.

E tem uma coisa que acho interessante falar, que isso para mim é uma coisa bem sagrada, essa coisa das ferragens,  e por isso, mesmo meu trabalho atingindo um grau inacessível aos valores de uma galeria, eu tenho uma causa com essa ferragens, de que elas tenham um preço acessível para o povo. É um trabalho espiritual, então quero que essas ferragens sejam vendidas por um preço compatível com a realidade do povo, com a realidade do terreiro, isso é algo que eu quero. Não faz sentido aumentar o preço de uma coisa que é um fundamento (...) e eu sou filho de Ogum né? Meu orixá é Ogum, Ogum Alagbedé, que é do ferro e da tecnologia, então eu estou dentro desse processo, do ferro e da tecnologia, eu cresço nesse processo.

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Confira essa entrevista na íntegra através do nosso canal no Youtube. Toda quinta-feira publicamos a coluna #TBT101, onde o ouvinte relembra entrevistas importantes que a 101.5 trouxe na grade de programação.


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