Manoel Constantino e Ziel Karapotó no estúdio da Frei Caneca FM. (Foto: Divulgação)
Por Júlia Nascimento
Toda quinta-feira é dia de relembrar momentos e entrevistas incríveis que passaram pela Frei Caneca FM. O #TBT101 de hoje te transporta para março de 2026, no programa Papo de Artista, apresentado por Manoel Constantino.
O programa recebeu o artista visual, cineasta e curador indígena Ziel Karapotó, natural da comunidade Karapotó Terra Nova, em São Sebastião, Alagoas, e hoje residente na Reserva Indígena Mata do Caeté, em Igarassu, Pernambuco. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Pernambuco, Ziel é um dos nomes mais relevantes da nova geração de artistas indígenas do país, com um trabalho que une audiovisual, artes visuais e pesquisa acadêmica em torno da ancestralidade e da luta antirracista.
Ao longo da conversa, Ziel falou sobre a espiritualidade que atravessa toda a sua produção artística, guiada por Tupã e pela Cabocla Jurema. Ele contou como saiu de Alagoas sozinho, aos 20 anos, para estudar em Recife, e como a sensação de ausência de referências indígenas na universidade o impulsionou a se tornar artista e demarcar seu território através da arte.
O artista também falou sobre um dos pontos altos de sua carreira: ter sido um dos três artistas indígenas a representar o Brasil na 60ª Bienal de Veneza, em 2024, com a obra Cardume 2, ao lado de Olinda Tupinambá e Glicéria Tupinambá, feito que também lhe rendeu indicação ao Prêmio PIPA. Ziel comentou ainda sua atuação como curador do Museu Indígena do Sítio Arqueológico de Lagoa Queimada, na Bahia, e como pesquisador nos grupos “Ciência e Arte Indígena no Nordeste” (UFPE) e “Culturas do Antirracismo na América Latina” (UFBA).
Um dos momentos mais marcantes da entrevista foi quando Ziel apresentou sua exposição Todos Falam de Mim, Ninguém Me Representa, que traz um olhar indígena crítico sobre a obra do pintor alemão do século XIX Johann Moritz Rugendas. Com curadoria própria e de Denise Galvão, do Instituto Ricardo Brennand, a exposição já passou pela Caixa Cultural Brasília e, à época, chegava a Pernambuco, propondo uma releitura das representações eurocêntricas e exóticas sobre os povos indígenas.
Confira um trecho do bate-papo:
Manoel Constantino: E como foi o primeiro contato com as artes visuais e o audiovisual? Como foi que você decolou a partir daí, decidindo mergulhar nisso?
Ziel Karapotó: A partir dessa inquietação, resolvi fazer artes visuais. Sabia que teria que sair de Alagoas, porque o estado não tem um curso público federal de artes visuais. Fiquei na dúvida entre Salvador e Pernambuco, e acabei decidindo vir para cá. Em 2015 cheguei ao Recife para fazer artes visuais.
Manoel Constantino: Sozinho, você e os caboclos.
Ziel Karapotó: Sozinho mesmo, de paraquedas, sem conhecer ninguém.
Manoel Constantino: E como foi encarar uma cidade nova? Você era novinho, né?
Ziel Karapotó: Tinha uns 20 anos. Foi um choque muito grande logo no início. Nesse lugar, senti muito essa ausência de identificação, não havia indígenas na universidade, poucas referências bibliográficas, e me senti sozinho nesse começo. Mas, aos poucos, fui tendo mais contato e ampliando meu entendimento sobre artes visuais.
Manoel Constantino: Essa construção de você como artista foi instigante e provocante, até você decidir “é isso mesmo que eu quero”. Porque, quando a gente é muito novo, quer abraçar tudo, com as pernas, os braços, a cabeça, o coração.
Ziel Karapotó: Acho que foi a ausência que me levou a me tornar artista. Quando entrei no curso de Artes Visuais na Federal, estava mais interessado pela questão educacional, entender para poder transmitir. Mas acho que esse lugar de ausência me levou a querer demarcar aquele território. Comecei, dentro da própria universidade, com performances artísticas, levando aos meus colegas um pouco da minha cultura, do meu repertório cultural. Acho que isso me moveu.
Manoel Constantino: E aí você chegou aqui e hoje é residente da Reserva Indígena Mata do Caeté, em Igarassu, Pernambuco. Foi uma forma de se sentir mais próximo das suas identidades?
Ziel Karapotó: Com certeza. Na reserva está o entendimento do que é ser indígena, algo muito complexo hoje, que passou por vários entendimentos, inclusive constitucionais. Mas, independente disso, acho que ser indígena é viver em um regime cultural coletivo, a gente precisa estar junto dos nossos para manter aquilo que somos. A Reserva Mata do Caeté é multiétnica, tem povos de várias etnias, é uma retomada, uma ocupação.
[…]
Manoel Constantino: É importante colocar isso aqui: há uma luta em cima de um território que é uma reserva indígena, e as pessoas precisam saber que os povos originários têm todo o direito, já que a reserva pertencia à comunidade. Quantas famílias são, mais ou menos, nessa luta?
Ziel Karapotó: Igarassu, assim como a maioria das cidades deste país, tem um histórico indígena apagado.
Manoel Constantino: Totalmente apagado.
Ziel Karapotó: O próprio nome já evidencia isso, é inquestionável. A gente tem aí umas 60 famílias. E muitos ficam nesse trânsito, trabalhando aqui no Recife e voltando para passar o final de semana lá. Mas é o nosso território, o nosso espaço, onde reafirmamos nossos saberes e nossa ancestralidade e isso reflete na minha arte.
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Curtiu esse trecho? Confira a entrevista na íntegra através do Spotify da Frei Caneca FM. Toda quinta-feira publicamos a coluna #TBT101, onde o ouvinte relembra entrevistas importantes que a 101.5 trouxe na grade de programação.





